Jornalismo: Sensacionalista?

Os tempos de pandemia e de furor mediático que correm fazem com que considere uma altura apropriada para abordar um tema algo abafado pelos meios de comunicação social, o sensacionalismo jornalístico, o mau jornalismo, ou até como se ouve por vezes em tom de crítica e revolta, “jornalixo”.

Ouve-se aqui e ali, em cafés ou conversas entre amigos, que o jornalismo assumiu uma posição muito dada ao exagero e ao apelar às massas a partir de títulos chamativos e potencialmente enganadores. Mas nunca se ouve falar disso, ou se lê sobre isso nos diversos meios de comunicação social. Não me recordo de alguma vez ter lido um artigo sobre mau jornalismo ou sobre o rumo que o mundo do jornalismo atualmente toma. Entendo, no entanto…. Qual é o médico que vai apontar defeitos à sua profissão ou qual é o político que vai falar das recorrentes lacunas no sistema partidário ou eleitoral? Qual é o analista económico que vai falar da potencial falibilidade das teorias económicas e dos algoritmos matemáticos?

Não sendo eu jornalista, e tendo um gosto especial por tentar apontar o que os outros têm potencialmente mais dificuldade ou receio de apontarem, escrevo o que considero ser e ter sido de há uns anos para cá, de facto, um dos maiores perigos para a sociedade atual.

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Bibilioteca antiga. Foto de Nino Carè. Fonte: Pixabay

O sensacionalismo no jornalismo é, apesar de tudo e antes de mais, um tema sensível, passível de inúmeras abordagens e de subjetividade tremenda, pelo que uma avaliação objetiva do que é ou deixa de ser sensacionalismo é, diria, virtualmente uma impossibilidade. Assim, começo pelo que é ou devia ser um dado adquirido na mente da população portuguesa e mundial. Os meios de comunicação competem entre si. As diferentes cadeias de televisão, jornais, sites e blogues de notícias, estações de rádio, entre muitos outros, estão em constante pelejar pela audiência. Quantos mais leitores, ouvintes ou telespectadores obtiverem, melhor. Com isto em mente, há que apelar ao maior número de pessoas possível e, verdade seja dita, poucas hão de ser as pessoas que apreciem um artigo que analise a fundo problemas conceptuais da economia europeia em comparação com as que apreciem um artigo sobre o mais recente escândalo da vida pessoal de uma atriz de novela. Tudo isto gera uma corrente de tendências mediáticas, que tentam a todo o custo (e até com um certo grau de legitimidade) ser chamativas com temas que interessem à população na sua maioria. Com isto gera-se, naturalmente, um conjunto de enormes problemas.

O primeiro, potencialmente mais explícito na explicação anterior, é a inclinação crescente para a estupidificação da população, pois a procura por algo mais simples e mais mundano leva os meios de comunicação a criar conteúdo à base disso mesmo. A partir daí, o mais simples e mundano passa a ser uma condição ainda inferior, o que leva a uma qualidade e complexidade ainda mais decrescente do conteúdo jornalístico. Sucintamente, é um círculo vicioso de difícil corrupção.

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Máquina de escrever. Fonte: Pixabay

Um outro problema, problema esse mais aliado à realidade que vivemos nos dias de hoje e que nos é bombardeada incessantemente, é o facto de se querer estar sempre na vanguarda. Com o COVID-19 na berra, tudo o que meios de comunicação social procuram fazer é esmiuçar ao ponto do insuportável o tema, atualizando minuto a minuto o número de mortos e infetados, procurando sempre, em qualquer coisa, do mais pequeno que seja, espremer um título chamativo. A partir dessa fome insaciável por conteúdo e audiência surge o grande título que se ouve de há anos para cá: Fake News. Pegando no exemplo do COVID-19, estações de televisão e de rádio, sites de notícias e jornais arriscam-se por vezes a pegar em qualquer vídeo que circule nas redes sociais como forma de captar audiências. Ainda no início do ano, um vídeo circulou por múltiplos canais de televisão orientais. No vídeo em questão, via-se um jovem caído no meio de um centro comercial, alegadamente morto por infeção do novo coronavírus. Só dias depois foi dado como falso o vídeo. Mas não há necessidade de recorrermos aos meios de comunicação social orientais como exemplo. Só na última semana assistimos, muitos de nós sem o saber, a uma disseminação de uma notícia que em nada se assemelhava à realidade, por parte da mesma entidade que afirma ter a integridade suficiente para ter o programa “Polígrafo”, em que avalia veracidade de notícias. No início desta semana, no telejornal da noite da SIC, imagens de um alegado motim em Londres, resultante da ordem de quarentena imposta, passaram. Veio-se, posteriormente, a verificar que as imagens passadas eram de um desacato com as forças policiais em 2011.

Tudo isto e mil e um outros problemas e questões culminam numa única conclusão, que é o que alimenta os meios de comunicação social, o que procura este ou aquele título, a população. A mudança da qualidade jornalística passa pela mudança de mentalidade da população, do que escolhem ver e como o escolhem. Os meios de comunicação limitam-se a ir ao encontro do que é a procura, e a procura encontra-se, neste momento, cega por coisas mundanas e com pouca importância.

Como mudar isso? Passa por múltiplos passos, mas na temática atual, se calhar mais presente e de mais fácil manejo, uma procura de fontes fidedignas, acatar com ordens das autoridades competentes, a calma e a ponderação são os ingredientes essenciais para uma melhor e mais erudita mentalidade, e consequentemente melhor e mais fidedigno jornalismo.

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Tiago Martinez

Autor

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